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sábado, setembro 17, 2005

O Fanecas ou Uma construção de um personagem (tão boa como outra qualquer)

O Fanecas, ou Necas para os amigos, era um gajo porreiro. Tinha lá o seu feitio, convenhamos... muito próprio, mas era o que se pode chamar um grande personagem.
Começava muitas das suas frases por: "Épa, isto pode parecer-te um bocado estranho..." ou "Já sei o que é que vais dizer...", ruminando qualquer coisa do arco da velha pelo meio, e terminando algumas delas com "Olha, são pérolas p’ra porcos, pá" ou "É dar bons vinhos a maus fígados, sabem lá o que é essa merda...".
O estado civil do Fanecas era algo que permanecia um mistério. Casado não era, não existia registo de nenhum acontecimento do género, mas não perdia uma despedida de solteiro. Também não constava que tivesse namorada oficial; claro que os amigos perceberam logo que a Ana Maria era alguém mais especial mas, como não falava nisso, também não lhe perguntavam. Trazia a tiracolo mulheres dos géneros mais diversificados, que iam, e às vezes voltavam, com uma frequência espantosa. Era um predador romântico: chegava a enviar flores e bombons às miúdas giras que apareciam na televisão, na internet, nos bares, esperando uma recompensa mas fingindo não a esperar. Conservava com as mulheres a sua educação da infância: o cuidado no evitar o vernáculo perto da mãe e as caralhadas e risadas que soltava com o pai.
Na política, assumia-se como um gajo do contra. Até nem se importava de levar outra vez com o Mário Soares e o Cavaco Silva, só para poder dizer mal à vontade devidamente fundamentado no passado. Mas não ia votar. Dizia com sarcasmo dos políticos: "É só injustiças de merda, eu não acredito em mentiras pá. ‘Tou-me a cagar p’ra eles todos, são todos uns corruptos. Puta que os pariu mais a recessão..."
O Necas gostava de folhear A BOLA logo pela manhã ainda cheia de tinta. E gostava de ver a bola com os amigos no café, até porque era forreta e nunca ia ao estádio. "Aqui é mais emocionante, um gajo lá não vê nada.", nunca se sabendo se a emoção lhe surgia com as fresquinhas que despejava ou com a visão mais toldada que disparava para o écran. Nas faltas dos jogadores da sua equipa justificava: "Ele ‘tava a ir à bola, a fazer jogo... e o outro gajo atirou-se pr’ó chão, pá! Qual é o árbitro que não vê esta merda?" O Necas levava as mãos à cabeça quando era golo da outra equipa ao passo que sorria tranquila e desdenhosamente quando a sua marcava.
O Necas era um ex-fumador desejoso de reincidir. Andava numa espécie de liberdade condicional pois havia largado há pouco tempo, e o que ele sofria!... Às vezes abanava a mão incomodado, a afastar o fumo do cigarro dos outros. Mas à noite, já com os copos, apetecia-lhe fumar este mundo e o outro. Ficava para ali a salivar qual canino de Pavlov mas como "um gajo é um animal racional" lá controlava os ímpetos, não deixando de fixar exaustivamente o objecto de desejo.
O Necas era funcionário público. Não gostava de falar do trabalho, a não ser para reclamar do facto de ter de trabalhar. Tinha muitas regalias mas fingia não as ter. Na verdade poder-se-ia dizer que o Necas trabalhava apenas quatro dias úteis, dado que às segundas de manhã e sextas à tarde não fazia a ponta de um corno. Andava a estrebuchar em frequência FDS Mega Hertz – FDS de fim de semana, ou em interpretação livre: "Foda-se, já aqui ‘tou outra vez?" e "Foda-se, o que’é qu’eu ainda aqui ‘tou a fazer?". No regresso das férias ao trabalho emitia em frequência pirata intraduzível.
O Necas tinha as suas particularidades, "Deixem-me cá com as minhas merdas, pá!". Por exemplo, gostava de sumo de mamão e não admitia piadas sobre o assunto. E depois existiam outros temas intocáveis como dizerem-lhe que era sovina, que guardava trocos por vocação, perguntarem-lhe por que é que lhe chamavam Fanecas e qual o seu verdadeiro nome. Mas o que realmente deixava o Necas chateado era dizerem-lhe que cheirava mal dos pés, "Ouve lá, mas tu queres levar uma pêra?". No entanto à noite largava os ténis a espantar o odor na varanda... mas isso só eu é que sei porque sou uma narradora omnisciente e inventei o personagem do Fanecas.

12 comentários:

Gui disse...

o provérbio Bons vinhos para maus fígados é de minha autoria...

Cláudio disse...

Parece-me que há por aí muitos Fanecas por esse país fora, pelo menos a ler o teu belo texto lembrei-me de uns dois ou três. A único coisa que não sei é se cheiram mal dos pés, mas isso só a narradora pode saber. Mas pronto... vou acreditar que não cheiram.

Quanto ao provérbio... só podia. Porque não fazes uma joint-venture com o Malato para uma versão revista e aumentada dos provérbios portugueses?

Freddy disse...

Rica vida a do Necas...
Vias os Amigos do Gaspar onde entrava um personagem chamado Necas com algumas parecenças com o criado por ti?

Beijitos da Zona Franca

Jubi disse...

Ò fanecas,tens cá disto?

joão fanecas disse...

Fanecas há muitos seus palermas!

paperspace disse...

ó fanecas sacode

QZ disse...

ummm...mais um tipico portuga...mto bom Gui!

PS: já revelaste as fotos do ppl da venteca??(tiradas algures no pátio do sol?)

Igguk disse...

Gui, o personagem está inventado.
Ficamos a aguardar as aventuras!


"Fresquinhas" têm direitos de autor

Mana Cat disse...

Gostei mto do retrato do Necas! Deve saber contar histórias giras e pensar que consegue enganar as gajas!
Gostei... escreve mais desses!

Gui disse...

Bem, parece que gostaram da personagem do Necas, eu própria me ri uns bocados à medida que fui criando os bocados da personagem... N\ao é inspirada em ninguém em particular, mas tem particularidades de gente que já observei. A narradora, além de omnisciente, é observadora.

Cláudio, vê lá se insistes com a Ana para irmos - os blogs irmãos - à tal copofonia - comentário do "Vou ficar para...". Quanto à edição dos provérbios, aposto que nem eu nem o Malato teríamos muito a acrescentar ao "Grande Livro dos Provérbios" do José Pedro Machado. Eu gosto mesmo é de inventar provérbios novos. Já agora, põe a vista neste, é o meu pai que costuma dizer e eu acho delicioso: "Muito come o tolo, mais tolo é quem lho dá" heheehheeh

Querido Freddy: não me lembro dessa personagem dos Amigos de Gaspar. às tantas a minha memória de criança foi buscá-lo sem que eu o soubesse. Uma vez já falámos dessa música maravilhosa que compunha o genérico, lembras-te? Gostava muito de pôr aqui o link para a Zona Franca mas estou impedida, a Ana está sem net por uns tempos e eu não tenho acesso. Só posso aconselhar os nossos ouvintes para te visitarem. bjs

Gui disse...

O João Fanecas até tem um primo hehehehe. É o Evaristo que por sua vez é primo do Vasco do Zoo. heeheheh
Beijos para o Jubi o Passarinho e o Salsa.
Vai haver festa em duo no dia 19?? venha ela.
QZ, ainda não há foto, não sei se te lembras como era antigamente: há que esperar que o rolo acabe, depois é levar aquele tubinho a uma loja de fotografias, esperar até que esteja revelado e aí sim ver o resultado final. Demora mais que a foto digital é certo, mas tem outra emoção (vcomo ver a bola no café heheheheh). Fica descansado que assim que a tenha na mão - afoto, bem entendido - vais ser o 1º a ver para colocar no vosso maravilhoso Venteca.

Gui disse...

Testas e Catarina: Podem crer que irei criar mais Necas em mais capítulos. É que não estava à espera de tanta aceitação...
Já agora se quiserem contribuir com ideias eu agradeço, pois ultimamente o meu pequenino cérebro tem estado um pouco parco em ideias novas.

Testas, se fresquinhas paga direitos de autor, teremos de falar com uma série de gente para pagar direitos, eu não tenho dinheiro para dar a tantos beberricantes hehehehehe

Catarina: dá muitos beijinhos, daqueles bons, à nossa Catarina. E tu recebe muitos beijinhos, daqueles bons. Góto ti...