Mais valia ter estado calada. Pus-me a queixar disto e daquilo e toma lá. Mas vamos ao início. O post anterior foi escrito a dia 19. Dia 20, desde o final da tarde e durante toda a noite, tive umas dores do género moinhas menstruais abaixo do umbigo. No dia seguinte, a 21, e já a estranhar as tais dorzinhas não passarem, decidi ligar à minha médica. “Deve ser alguma alteração ao nível do colo do útero. Venha cá ao hospital porque temos de vigiar isso”. “Hum… pronto, mas doutora, as dores não têm regularidade e não são assim muito fortes. Eu estou em Mafra, acha mesmo que é melhor ir, é isso?”. E foi isso.
Os meus pais chegaram a minha casa para me darem o habitual almoço e lá lhes disse que tinha sido aconselhada a ir, mais uma vez, às urgências. Tomei banho, almocei peixe frito com arroz de tomate e lá fomos para mais uma trivial viagem para as urgências, a menos stressante das tantas que já tínhamos feito com perdas de líquido e de sangue pelo meio.
Já com o médico, deitei-me na marquesa para o exame ginecológico. Meteu-me o chamado bico de pato e ficou com cara de parvo a olhar lá para dentro. Perguntei-lhe o que se passava, para não me esconder nada. “Não se assuste, mas eu estou a ver aqui um pé”. Isso mesmo, um dos bebés, o que tinha pouco líquido, estava com pressa de sair e decidiu dar o ar da sua graça às 27 semanas com um pé a espreitar no meu colo. Perplexo, o médico pediu-me de imediato autorização para chamar uns colegas para ver aquilo e tirar uma fotografia ao “fenómeno” com o telemóvel. Deitada, eu mal conseguia pensar no que estava a acontecer e o meu coração pulava que nem louco ao aperceber-me que tinha chegado a hora. E a hora era definitivamente cedo demais. Eu devia estar com uma cara que o médico sentiu-se na necessidade de explicar: “Esteja descansada que não vou apanhar a cara”. Eu queria lá saber da foto, eu já só pensava que ia ser mãe naquele momento e que quando voltasse a cruzar-me com os meus pais na sala de urgências era para lhes dizer que iam ser avós.
As lágrimas escorriam-me pela cara, mas pararam na sala de partos, tal era o estado de pânico em que eu estava. Levada pela minha hipocondrice, entrei por ali dentro a dizer que tinha isto, e aquilo, ah e cuidado também que sofro disto e (a melhor) almocei peixe frito com arroz de tomate, isto não me pára a digestão?
Em trinta minutos e já com a epidural dada dava-se início à cesariana. Primeiro saiu o Tomás, o que tinha pouco líquido, com pouco mais de um quilo, depois saiu o Rodrigo, com um quilo e cem gramas. Uns ratitos lindos que ainda tive a oportunidade de espreitar quando nasceram, mas que foram logo levados para serem preparados para as incubadoras. Passadas oito horas, e enfrentando várias dificuldades respiratórias e deformações físicas, o Tomás acabou por não resistir. Passo à frente os sentimentos e as emoções que ainda agora em mim vivem e o que eu em maridão passámos a tratar de coisas tão opostas como certidões de nascimento, e de óbito, subsídios de nascimento, e funerais.
Ficou o Rodrigo. Um bebé lindo que está a reagir muito bem à vida e para o qual cada dia que passa é uma vitória. Em apenas oito dias, já respira sozinho, já faz cocó, está a ganhar peso e a única coisa que está por ultrapassar é aprender a comer sozinho. Médicos dizem que está para muito breve.
Custa muito estar em casa sem ele, mas todos os dias o Rodrigo recebe a visita dos papás no hospital, bem como boas doses de leite, que retiro de três em três horas com uma bomba. Sem estar à espera, a minha vida mudou. Sou mãe e agora só penso no dia em que o Rodrigo vai poder vir para casa. E sem dar conta, lá continuo eu a riscar os dias no calendário.
E com toda esta história, confirmei que sou mesmo uma mariquinhas do caraças. Sofri horrores com as dores da cesariana e chorei em desespero enquanto as colegas de quarto faziam mortais encarpados com os bebés equilibrados na cabeça e os analgésicos esquecidos em cima da mesa. E eu em lágrimas, a rastejar aos pés das enfermeiras para me encherem as veias de morfina e me porem a dormir. Uma fraquinha, portanto.